quarta-feira, 23 de novembro de 2016

"Um Pássaro Antigo nos Olhos" de Alice Duarte





Conhecemos sempre, nos nossos círculos de relações, aquelas pessoas que se conformam com a vida. Mas também temos aquelas outras, poucas, que nunca deixam de voar ou, porfiadamente, de o tentar.
Talvez esse voo não nos seja imediatamente óbvio ou gritante, mas a verdade é que, em momentos dessa nossa vida, nos surpreendemos com o quanto elas nos inspiram ou motivam. São, enfim, o súbito lampejo do farol que buscávamos por entre alguma neblina mais cerrada dos dias.

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Para mim, vem já de alguma distância vivida este conhecer a Alice Duarte, enquanto procriadora de um universo tão humano em forma de poemas e que sinto estranhamente muito próximos. Tão próximos esses poemas quanto inteligíveis, nunca sendo, entretanto, fáceis, o que nos transporta ao desafio inevitável da procura do «outro» em cada abordagem de cada poema e, assim, também descobrirmos algo de nós próprios de que estávamos desatentos.

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E se concordarmos que uma das atribuições fundamentais do exercício poético é o despertar emoções, ah, então aí a obra criada, neste domínio, pela Alice é uma torrente impetuosa na invernia em que, de súbito, se transformou o ainda há pouco recatado e remansoso regato.

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Em boa hora, então, a Alice Duarte decidiu recolher a sua obra dispersa e deixá-la ao nosso acesso. Para nosso proveito, como vos será, estou certo, bastante evidente.

E se um livro de poemas pode até ser de leitura aleatória, uma coisa vos confesso da minha passagem pelos poemas da Alice Duarte: no final de cada um, de leitura em alta voz e ponderadas as palavras, não pude deixar de sentir acender-se-me no peito o sol de uma vela, sem som de gemidos…

do prefácio (I) de Jorge Castro



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Para quem gosta de poesia e se atreve ao prazer íntimo de ser capaz de a fixar a ela, poesia, (que por aí anda livremente, sem autorização ou propriedade seja de quem for), num corpo de escrita é sempre um sentimento de enorme gratificação assistir ao nascimento de um novo livro de poemas e à revelação de uma talentosa poetisa.

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Desde logo o título – “Um Pássaro Antigo nos Olhos” – que nos remete para o voo livre da poesia – “Poesia Liberdade Livre” de que fala o poeta António Ramos Rosa – sem outro limite que não seja o olhar da poetisa sobre o mundo e as coisas. E os seus próprios sentimentos.

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Noutro plano, – ou seja, a poesia enquanto lugar de celebração do “corpo mítico” do amor – este primeiro livro de Alice Duarte, “Um pássaro Antigo nos Olhos”, além de ir fundo na percepção da natureza dos sentimentos amorosos é expressão de uma simplicidade e autenticidade surpreendentes.

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Neste e outros poemas a ilustração de uma “escrita no feminino”, na melhor concepção do adjectivo “feminino”, estruturada, sensível e generosa, que dignifica a autora e a admirável essência da vida, que a verdadeira poesia, em última instância, sempre visa.
Parabéns à Autora. E parabéns à Modocromia que revelou mais uma talentosa poetisa – Alice Duarte.

do prefácio (II) de Manuel Veiga